19/03/2020 - Além de procurado por muitos turistas brasileiros e estrangeiros, este litoral é também frequentado por uma espécie extraordinária ↓
O litoral Potiguar abriga uma das mais lindas paisagens do nordeste brasileiro, com praias singulares intercaladas entre dunas e falésias. Além de procurado por muitos turistas brasileiros e estrangeiros, este litoral é também frequentado por uma espécie extraordinária: a tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata).
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A tartaruga-de-pente ou tartaruga-verdadeira, como é chamada na região, por muitos anos foi alvo da caça por comunidades costeiras que utilizavam sua carne e ovos para consumo, e sua carapaça para fabricação de jóias, adornos pessoais, utensílios domésticos e decoração. Um dos usos mais comuns da carapaça era para a fabricação de pentes de cabelo, o que deu origem ao seu nome popular. É também devido a essa caça que hoje essa espécie é classificada como criticamente ameaçada de extinção pela União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) e Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas do ICMBio.

O estado do Rio Grande do Norte abriga uma importante área de reprodução para a tartaruga-de-pente, considerada a região com maior densidade de desovas para o Atlântico Sul Ocidental. Devido a essa importância, motivado por parceiros locais, como o Santuário Ecológico de Pipa (SEP), e pela curiosidade dos pesquisadores do Projeto Tamar/Fundação Pró-Tamar, surge nos anos 2000 a base de Pipa, em Tibáu do Sul, com objetivo de conhecer mais sobre essa espécie tão rara.
As atividades de pesquisa e monitoramento de praia se intensificam durante os meses de novembro a maio, acompanhando a temporada reprodutiva das tartarugas-de-pente. Durante essa época, a equipe do Projeto Tamar/Fundação Pró-Tamar monitora 42 quilômetros de praia que se estende desde Natal até Baía Formosa, registrando em média 840 desovas e protegendo 80.000 filhotes por temporada, além de desenvolver diversas atividades de educação e sensibilização ambiental.
As pesquisas com as tartarugas-de-pente nesta área trouxeram muitas informações interessantes para ajudar a entender a biologia e ecologia destes animais. Sabemos por exemplo que elas pesam em média 79,6 Kg e podem medir até 92 cm de comprimento curvilíneo de carapaça. Descobrimos também que as tartarugas-de-pente potiguares fazem em média 3 ninhos em uma temporada, com um intervalo de 15 dias entre cada desova. Depois que elas finalizam a temporada reprodutiva, migram para suas áreas de alimentação e só irão retornar após 2 ou 3 anos.

Mesmo com estas descobertas, uma pergunta sempre instigava os pesquisadores: “Depois que a temporada reprodutiva acaba e não vemos mais as tartarugas-de-pente adultas por aqui, para onde elas vão?”. Movidos por esse questionamento, o Projeto Tamar/Fundação Pró-Tamar decidiu estudar a rota migratória destas tartarugas através da telemetria via satélite.
Surge então o projeto “Constelação das tartarugas-de-pente”, onde cada fêmea desta espécie que recebeu um transmissor em sua carapaça foi batizada com o nome de uma estrela, para identificação dos dados individuais.

Depois de instalado, o transmissor emite sinais que são captados por satélites e enviados a um programa de acesso da equipe do Projeto Tamar/Fundação Pró-Tamar. Assim, é possível acompanhar a rota de viagem das tartarugas-de-pente e poderemos saber para onde elas migram quando terminam sua temporada reprodutiva. Até o momento, todas as nossas “estrelas” viajam e ocupam áreas de alimentação ao longo da costa brasileira.
Conforme o local onde elas escolheram para se alimentar, foram estabelecidos três padrões: 1) residentes - permaneceram no estado do Rio Grande do Norte, como a tartaruga Capella; 2) as viajantes do norte, que tem suas áreas de alimentação em estados como o Ceará, Maranhão e Pará, que é a residência da tartaruga Mimosa e; 3) as viajantes do sul, que escolheram os estados da Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, como foi o caso da tartaruga Altair.
Algumas das áreas de alimentação nesses estados são ou ficam próximas de Unidades de Conservação, como por exemplo, a APA Estadual Recifes de Corais/RN, o Parque Estadual Marinho do Parcel Manuel Luis/MA e a APA Costa dos Corais/PE/AL.
Interessante, não é!? Agora conseguimos responder nossa pergunta e traçar a rota migratória das tartarugas-de-pente do Rio Grande do Norte. Mas você deve estar se perguntando, além de interessante, qual a importância disso?
O Projeto Tamar/Fundação Pró-Tamar protege grande parte das principais áreas reprodutivas de tartarugas marinhas na costa brasileira. Saber onde as tartarugas marinhas adultas vivem entre seus períodos reprodutivos ajuda a direcionar nossos esforços para a proteção destes ambientes. Além disso, os resultados destas pesquisas auxiliam no embasamento para políticas públicas.
Protegendo a tartaruga marinha acabamos protegendo todo o habitat marinho, garantindo bem-estar, saúde e qualidade de vida também para a espécie humana.
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